
por Irina Fernandes/Fotos Gustavo Bom/Global Imagens
Dois meses depois, Bruno Nogueira sente-se feliz com Lado B porque faz o humor que quer. Em 2011 sobe ao palco do Teatro D. Maria II, em Lisboa, na pele de um homem com cara séria…
A primeira série de Lado B foi uma grande aventura televisiva…
Sim. Consegui colocar em prática algumas das coisas de que gosto dentro do universo do humor. A minha ideia era experimentar algo diferente, com uma liberdade que é muito vantajosa e que passa por fazer o tipo de humor que quero, com gente que quero. Ter carta branca para tudo isto é uma coisa cada vez mais rara. Sinto-me um privilegiado.
Levou-o a outros lados de si mesmo?
O fundamental para quem apresenta um programa como este é conseguir imprimir a sua marca. Sim, levou-me para o lado da entrevista, que eu já tinha feito no Curto Circuito, mas aqui tenho de concentrar a conversa de cada convidado em 13 minutos e falar de coisas menos óbvias. É complicado fazer o exercício de surpreender, mas tento fazer o meu melhor.
De que é feita a sua identidade, a sua marca?
Não sei, sou a pior pessoa para definir isso. Sei o que procuro, e isso é não ter barreiras psicológicas para fazer aquilo de que gosto. Essa é a minha identidade, mas quem me vê é que pode dizê-lo.
Superou-se? Ou esperava mais de si neste Lado B?
Sabe, é tudo um processo evolutivo. No início do programa estava a “apalpar” terreno, mas agora no final senti-me à vontade. É muito complicado concentrar tudo o que quero fazer em 50 minutos. Há uma banda que é extraordinária e a que queremos dar mais destaque, gostávamos de que as entrevistas durassem mais tempo… Até dominar essa mecânica demorou o seu tempo.
Foi uma tarefa difícil?
Até se dominar, até se estar completamente à vontade, até sermos nós sem preocupações de tempo e de uma série de coisas, sim, demora… Num directo acontecem muitas coisas… Basta uma conversa com um dos convidados demorar mais e estar a ser interessante… Só com alguma prática é que vou conseguindo dominar.
O que custou mais a dominar?
É complicado tentar concentrar em tão pouco tempo algo que achamos que daria para alongar.
Gostava de ter mais tempo de antena?
Não sei, não sei se seria vantajoso… Julgo que passa pela nossa gestão do tempo e ter menos conteúdos para o tempo que temos. Nós é que temos de nos habituar ao tempo normal de um talkshow e que são 50 minutos.
Qual a maior lição que leva para casa?
Um directo obriga a estar sempre em alerta. Tem a grande vantagem de ser surpreendente mas, por outro lado, há muita coisa que nos foge da mão. Quando vejo em casa, percebo que podia ter agarrado um ou outro tema. Num directo não temos essa lucidez, mas sou um defensor do directo.
Sente que foi muito ou pouco lúcido?
É um processo evolutivo. Primeiro está a tentar conhecer o próprio programa e só depois começa a afinar.
O sofá de que se queixou Herman José e Mário Augusto foi o único problema de Lado B?
O sofá foi algo que poderíamos ter resolvido no segundo programa, mas achámos que se tornou uma coisa característica… Mantê-lo foi uma opção porque entendemos que ia descaracterizar o programa… Sim, há outros problemas, mas não de maior. Toda a equipa pensa da mesma maneira que eu, rumamos todos para o mesmo lado.
Quais as metas para a próxima temporada de programas?
Tornar cada um dos programas interessante e que dê ainda mais vontade de ver.
Quando recebeu Herman José em estúdio, ele disse-lhe: “Quando perderes essa frescura física… perceberás o que é sentir que querem o teu enterro.” Tem medo que a idade lhe retire a piada?
Não. Nenhum. Nesta idade nem pensamos nessas coisas, e ainda bem que não pensamos. Acho que há um tempo para tudo. Há-de surgir fases mais complicadas. Não é algo em que pense, não ia estar a desfrutar.
Qual o seu maior receio?
Perder a piada. O receio de deixar de perceber o que é que faz rir as pessoas. Entender que mecanismo é que faz as pessoas rir sempre.
E o seu maior objectivo é…
Tentar fazer coisas diferentes. Fazer uma coisa nova é algo complicado, há muita coisa. O meu maior objectivo é ter uma identidade própria.
Quando a piada não surte efeito ou comete algum erro, assume-o perante as câmaras. É o seu truque para salvar o momento?
É uma reacção. Faz-me sempre confusão quando uma piada não funciona e tenta-se passar em frente como se o público não tivesse percebido isso. Penso que o público percebe tudo, quando a piada corre bem e quando corre mal. É mais fácil assumir e estarmos do lado dele também. Acho ridículo quando uma coisa corre mal e se tenta dar a volta, penso que ainda é pior. Quando me acontece algum imprevisto as pessoas percebem que eu sei que algo correu mal. E a partir daí não estou a tentar ser superior às pessoas.
E assumir traz um perdão e uma maior proximidade ao público…
Sim, é algo que é humano. Acho que não vale a pena estar a passar por cima disso.
Como lida com o erro? Fica irritado?
Irrita-me mais não ter tempo para o convidado, por vezes é a própria RTP que nos tira mais cedo do ar… isso sim, preocupa-me mais. O resto é o lado humano da coisa…
E os Contemporâneos?
É um projecto intemporal e que fazia sentido com outro número de pessoas. Se se conseguir juntar esse grupo, não vejo porque não… É um projecto pelo qual tenho um grande carinho.
Disse a Daniela Ruah: “Eu tenho muito talento para fazer de magro e morto.” Para quando teatro a sério, sem riso à mistura?
Em Janeiro. Vou fazer uma peça no Teatro Nacional D. Maria II, com encenação de Beatriz Batarda, e não será uma comédia. Será uma coisa mais a sério. Não foi uma coisa que procurasse… que achasse que devia experimentar um registo mais dramático, mas como surgiu o convite e é com o Nuno Lopes, Rita Durão… Não há nomes de nada. Surgiu o convite com estas pessoas, o texto era maravilhoso e por isso aceitei.
Como será o seu papel?
Digamos que não será um papel para rir, pelo menos intencionalmente. Pode é dar para rir! (risos)
Já está a pensar nas férias?
Sim, o programa terminou a 11 de Julho, o Tubo de Ensaio, transmitido pela rádio TSF, também vai terminar. Volto ao activo em Setembro e até lá vou fazer de magro. (risos) Vou descansar.
Os próximos passos são… O que ambiciona?
Ambiciono muito pouco porque tenho tudo. Tenho a felicidade de fazer aquilo de que gosto, com pessoas de quem gosto. Não me sinto no direito de pedir o que quer que seja. Nesta fase não posso pedir muito. No futuro? Não penso nisso. As coisas vão surgindo, e se tiverem de acontecer, acontecem.
Fonte: Diário de Notícias