Bruno Nogueira diz que “os políticos têm muito medo do humor”
Terça-feira, Outubro 6, 2009 11:35O humorista, que está a trabalhar com cinco amigos no Maxime, em Lisboa, fala do riso na política. Em Novembro começa a ensaiar Aristófanes, com Luís Miguel Cintra, que será a sua estreia nos clássicos.

O humor é uma profissão séria, garante Bruno Nogueira, do alto dos seus 27 anos e 1,94 metros. Tão séria que, com cinco amigos – Óscar Branco, Eduardo Madeira, Francisco Menezes, Aldo Lima e Nilton -, vai estar, às terças-feiras, no Maxime, em Lisboa, para testar textos “Os políticos têm muito medo do humor”humorísticos. Em Janeiro, estreia a peça “A Cidade”, de Aristófanes, dirigida por Luís Miguel Cintra. Um projecto que inviabilizou a quarta série dos Contemporâneos. Enquanto isso, Bruno fala com Deus no “Tubo de Ensaio” da TSF e conversa com o Expresso sobre o actual papel do humor na política.
Porque se juntou com mais cinco humoristas às terças-feiras no Maxime?
Não é um dia triste? Não, é só o que nos dava mais jeito. Em Portugal começamos ao contrário: normalmente testa-se no teatro e só o melhor vai para a televisão. Aqui não.
É para ter rodagem do teatro?
E para aperfeiçoarmos o texto. A ideia é testar material novo até estarmos seguros. O maior desafio era ter um espaço onde pudéssemos, descomprometidamente, experimentar sem ter de funcionar sempre.
Na estreia concorreram com os Gato Fedorento. À mesma hora Manuela Ferreira Leite falava na televisão.
Não percebi.
Estou a falar do horário e da afluência. Não parece terem perdido público. Ficaram pessoas de fora…
Há público para tudo e as pessoas que não viram, e quisessem ver os Gato, deixavam a gravar. O tipo de produto não é comparável, embora seja provavelmente para o mesmo público.
Estes textos serão usados noutras ocasiões? Ou é uma oportunidade de vocês se divertirem?
É acima de tudo um laboratório. E a possibilidade de podermos assistir ao trabalho de colegas. Podemos trocar ideias sobre temas de textos. Acima de tudo, é um laboratório sem outras pretensões.
Além do programa dos Gato, a campanha ficou marcada pelas acções dos “Homens da Luta”. A vossa profissão está a tornar-se arriscada por assumirem questões de maior relevância social?
Cada um é responsável pelo que faz. Os políticos têm muito medo do humor. Foi um fenómeno gigantesco os líderes partidários terem aceite ser entrevistados pelo Ricardo (Araújo Pereira). Só tinham a ganhar. É vantajoso para eles.
Porquê?
Primeiro, porque sabem da grande audiência. Depois, mistura pessoas que costumam assistir aos Gato, mais jovens, e quem costuma assistir aos debates. É proveitoso para ambas as partes. Também é a maneira de o público ver os políticos de uma maneira mais descontraída. É verdade que é sempre um pouco artificial…
Para os humoristas, quais as vantagens? É arriscado ter uma intervenção directa?
Quem vai votar não é por ver uma rábula que muda de voto.
Os humoristas estão a assumir o espaço dos jornalistas, que poderão ter deixado de fazer perguntas críticas?
Não queremos assumir a posição dos jornalistas. A actualidade vai da política ao desporto. Em campanha eleitoral há mais assunto político para satirizar. É mais fácil para um humorista tocar em certos assuntos, porque não tem a responsabilidade dos jornalistas. Quanto mais realista for, melhor, mas como é humor não tem a pressão que um jornalista terá.
Porque é que dois milhões de pessoas assistiram à entrevista a Paulo Portas?
Há muitas pessoas que já não têm paciência para assistir a debates políticos. Se os mesmos temas forem abordados de maneira mais descomprometida, suscita mais interesse. Há um vouyerismo em saber como os políticos vão lidar com humoristas que falam de assuntos delicados sem ser ofensivos.
É o mesmo que faz nas entrevistas dos Contemporâneos.
A realidade é mil vezes mais hilariante do que a ficção. A frase não é minha. Quando fazemos uma personagem, achamos sempre que é de mais. Mas é sempre de menos. Nos Contemporâneos, 40% do material era editado, para preservar as pessoas. Antes de ir para o ar, elas tinham de assinar uma declaração, autorizando a divulgação das imagens. O mais estranho é que perguntamos sobre algo e elas respondem sobre outro assunto! Têm sempre uma forma de dar a volta! Sabe, Portugal não é muito diferente daquilo. Vivemos uma altura em que as pessoas estão alienadas do que as rodeia. Estarem na rua ou sozinhas é mais ou menos o mesmo. As pessoas tornaram-se transparentes. É possível que tenham tantos problemas que não queiram abrir espaço para mais. Mas este isolamento é um bocadinho assustador.
Até que ponto há tabus no humor? Política, religião, etnia, deficiência são temas risíveis? Tudo é passível de humor.
Nos Contemporâneos conseguimos furar algumas barreiras e no “Tubo de Ensaio” ainda mais.
No Tubo o Bruno é mais Bruno?
Sim, é onde eu e o João Quadros escrevemos tal e qual pensamos. Na RTP temos a consciência de que a imagem é muito mais poderosa e que há coisas que não devemos ainda fazer.
Ainda. O país está a mudar?
Sim, o que os Gato estão a fazer é uma lufada de ar fresco, mas o Herman fazia há imenso tempo no “Parabéns” e no “Herman 98″. Não sei se estaremos a regredir. Não devemos é comparar com os tempos anteriores.
O facto de a RTP ser uma estação pública limita-vos?
Até agora foi a estação que menos nos limitou. Nunca nos disseram nada. É um fenómeno extraordinário. Nós é que nos autopoliciamos. A nossa intenção não é chocar para dar o que falar. Tudo o que for pisar os limites tem de ter uma função. Ou então não vale à pena. Até que ponto todos nós, na sociedade portuguesa, estamos a autolimitarmo-nos, antes de existir a censura? Sente isso? Mais cedo ou mais tarde haveremos de sentir. Em pequenas coisas sentimos. Não há uma censura tão cerrada como havia, mas há maneiras menos óbvias de o fazer. Quando vou fazer espectáculos, aconselham-me a não falar de determinados assuntos…
Quem? Que tipo de pessoas?
Directores de empresas. “Não fale de política” é um dos conselhos. É uma forma de nos explicar que quem paga, manda.
E o que faz então?
Já houve vários espectáculos em que fui sincero, explico o tipo de humor que faço. Mas, à partida, acredito que quando me vão contratar sabem o humor que me caracteriza. Nunca na vida me passaria pela cabeça fazer um espectáculo para destruir a empresa que me contratou, mas só de pensarem nisso me dá uma espécie de pena alheia. Nos meios mais visíveis, como a rádio e televisão, nunca senti isso. Mas já me pediram para pedir desculpas.
E o que faz?
Digo que não me importo de fazer, se puder divulgar o telefonema. Neste caso, será uma espécie de direito de resposta, mas 99,9% das pessoas recuam.
Já recebeu a célebre chamada do primeiro-ministro ou dos seus assessores?
Curiosamente não. Já sofri uma ou outra pressão, mas nunca do gabinete do primeiro-ministro. Seria incapaz de sofrer uma pressão dessas e não tornar público. As pessoas sabem. Um humorista tem a liberdade de fazer o que quer. Como um político também tem, embora não devesse. É tudo demasiado frágil para poderem policiar-se uns aos outros.
Mas conhece humoristas que tenham sofrido esta pressão?
Sim, sim. O humor é muito perigoso. Intimida muito. As pessoas têm muito medo do humor. É uma maneira mais fácil de assimilar o assunto e ninguém gosta de ver os seus telhados de vidro expostos. É preciso ser-se muito inteligente para ser visado num quadro humorista e reagir com fair-play. Dou muito valor a estas pessoas.
Ter-se-ia lembrado de fazer os corninhos do Pinho?
Já foram feitas coisas muito piores. Há uma série de políticos envolvidos em processos e em que é tudo neutralizado. Foi um gesto infeliz, mas há coisas muito piores. Choca-me mais o tempo de um processo até ser julgado do que um momento de cansaço.
O que achou de até o Presidente da República ter feito humor durante a campanha, ao imitar os Gato na entrega dos Prémios Gazeta, dizendo “vou falar, falar, falar, e não dizer nada?”
Não foi humor. Foi uma tentativa muito generosa de fazer humor. Involuntária, embora ele não tenha percebido.
Os políticos perceberam o potencial do humor e vão começar também a fazê-lo? Teme perder o emprego?
Espero bem que não, porque a concorrência seria desleal. Os políticos ganharão sempre.
Esperava aquilo de Cavaco Silva?
Tenho a qualidade de não esperar grande coisa. Gosto de ser surpreendido com momentos tão maravilhosos quanto este. É a grande vantagem de já não se estar à espera de nada.
Para o humor, é mais fácil esta dispersão de votos?
Há mais pólos de interesse, o que é mais agradável.
Deveria institucionalizar-se o humor, criando um ministério?
Se assim fosse, não poderíamos fazer muito do que fazemos actualmente.
Sugeriria alguém para ocupar tal pasta?
Não me atreveria. É demasiado complicado. O humor é uma coisa seriíssima, porque mexe com todos os temas delicados da sociedade.
Tem uma função social?
Sim. Temos o dever de falar da actualidade do ponto de vista mais descomprometido e imparcial, possível. É fundamental.